Da Fábrica ao Hospital: Como a Engenharia Industrial Está Redesenhando a Infraestrutura de Saúde e Ciências da Vida
Por: Matheus dos Reis Melo
Por trás de cada novo medicamento aprovado, de cada exame de imagem realizado em minutos e de cada planta farmacêutica que entra em operação sem atrasos, existe uma camada de engenharia que raramente aparece nas manchetes: a infraestrutura física que viabiliza tudo isso. Hoje, essa camada está passando por uma transformação silenciosa, e ela está sendo liderada por profissionais que aprenderam a cruzar fronteiras entre setores que, até pouco tempo atrás, praticamente não se falavam: construção industrial pesada, manufatura farmacêutica e infraestrutura hospitalar.
“O que estamos vendo é uma convergência real entre engenharia industrial e ciências da vida”, observa Tami Rocha, gestora de projetos com mais de 17 anos de experiência em construção civil e industrial nos Estados Unidos e no Brasil. “Há dez anos, quem construía uma planta de manufatura não necessariamente entendia os requisitos de validação de uma sala limpa farmacêutica. Hoje isso já não é opcional.”
Rocha vivenciou essa convergência de dentro. Em projetos para a AstraZeneca em Gaithersburg, Maryland, ela liderou o planejamento e a execução de reformas de instalações e a instalação de equipamentos críticos de bioprocessamento, entre eles, Hamilton Stars, biorreatores e centrífugas, sempre em ambientes regulados, onde qualquer desvio de cronograma tem impacto direto sobre a produção de medicamentos. “Não existe margem para improviso quando o equipamento que você está instalando vai produzir um insumo biológico”, afirma.
Da planta industrial ao centro de diagnóstico
Essa mesma lógica de precisão apareceu, de forma ainda mais visível, em um projeto anterior de Rocha no Brasil: o desenvolvimento de um novo centro de diagnóstico por imagem para a Fleury, uma das principais redes de medicina diagnóstica do país, na zona sul de São Paulo. Ali, o desafio não era apenas construir dentro do prazo e do orçamento, era instalar um equipamento de ressonância magnética sem jamais interromper a operação da unidade.
“Conseguimos planejar toda a infraestrutura de alimentação elétrica com tamanha antecedência que entregamos e instalamos o equipamento de ressonância no mesmo dia, sem parar a operação”, relembra. A equipe adotou soluções industrializadas, estruturas de concreto e contenções pré-moldadas, combinadas a um conceito de just-in-time que eliminou a necessidade de grandes áreas de armazenamento no canteiro.
Antes disso, na construção de um centro de distribuição, planta de manufatura e edifícios administrativos para a Procter & Gamble no Brasil, Rocha liderou um processo de reengenharia que reduziu significativamente a execução de paredes de contenção, gerando uma economia de aproximadamente BRL 7 milhões (cerca de USD 2 milhões) para o cliente, em um projeto que envolveu a movimentação de 1,1 milhão de jardas cúbicas de solo e a incorporação de um programa de Certificação LEED.
Por que isso importa agora
Para Rocha, esse é o ponto de inflexão do setor: “Os próximos grandes ganhos de eficiência em infraestrutura de saúde não vão vir de um equipamento novo ou de um material de construção diferente. Vão vir de gestores de projeto que conseguem pensar como engenheiros industriais e como operadores de saúde ao mesmo tempo.”
“Não existe margem para improviso quando o equipamento que você está instalando vai produzir um insumo biológico.” – Tamara Vieira Rocha
SOBRE A ESPECIALISTA , gestora de projetos sênior com MBA em Administração, Gestão de Projetos e Gestão Financeira, com mais de 17 anos de experiência liderando projetos de construção industrial, farmacêutica e de infraestrutura de saúde para clientes como AstraZeneca, Procter & Gamble e Fleury.